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Perfis » Negócios PE - 28ª Edição

Antenor vencedor

Com Antenor Lino

Por Viviane Barros Lima, especial para a Revista Negócios PE | Foto de Bosco Lacerda

Antenor e Solange Lino, muito mais que marido e mulher

Trinta por cento. Foi este o percentual que restou depois daquela curva. Uma vida que vinha em linha reta, acelerada e com todos os obstáculos sendo vencidos, mudou completamente numa curva. O desalinhamento tomou conta da vida de Antenor Lino e transformou o patrão em funcionário, o morador de um apartamento próprio na beira-mar de Piedade em um inquilino do Cordeiro, o escritório de alto padrão na Ilha do Leite em um negócio improvisado numa garagem e 100% dos movimentos em 30%. Mas vamos começar do início.

Antenor Lino nasceu em Ibimirim, em 1945, e veio com os pais e os cinco irmãos para o Recife, em 1960. O pai, agricultor e comerciante, queria garantir um futuro melhor para os filhos na capital. Antenor reconheceu o esforço e partiu para ganhar a vida como podia. Fez até o terceiro ano da faculdade de Economia. Largou os estudos para trabalhar. Foi vendedor de carvão vegetal nas favelas do Recife, taxista e transportador de verduras da Ceasa para os feirantes. Aos 31 anos, começou a estudar Direito na Universidade Católica de Pernambuco, mas trancou o curso na metade depois que uma amiga o alertou para a boa fase do mercado imobiliário.

“Em 1977, fui bater à porta da maior imobiliária da época, a Paulo Miranda Imóveis, para pedir um emprego. Consegui e fiz carreira dentro da empresa. Passei cinco anos por lá. Entrei como assistente de corretor e saí Por Viviane Barros Lima, especial para a Revista Negócios PE Foto de Bosco Lacerda como gerente geral”, relata Antenor. E saiu para tentar carreira na Lopes, em São Paulo. Ao chegar à empresa paulistana para pedir emprego, Antenor diz que perguntou de cara ao diretor da época: “Quem é o seu melhor corretor e quanto ele fatura?”.

“Não queria parecer vaidoso. Mas um sertanejo nascido nas brenhas, quando chega na capital, quer logo impressionar”, brinca. Impressionar, ele não impressionou. Nem teve tempo pra isso. Ficou apenas três meses em São Paulo. Voltou com saudades da noiva, Solange, em 1982. Foi quando abriu a própria imobiliária que, em apenas dois anos, já figurava entre as maiores de Pernambuco. Tudo ia bem, os dois se casaram, tiveram dois filhos, viviam felizes. Os negócios progrediam. A imobiliária tinha uma equipe de vendas com 35 corretores, comercializava 45 prédios e era parceira de 35 construtoras. Foi quando veio a curva no caminho.

No dia 30 de setembro de 1984, Antenor tinha ido a uma comemoração da imobiliária e, durante a tarde, foi buscar Solange na casa da mãe dela, em São Lourenço da Mata. Dirigia o carro na companhia de três funcionários da empresa. Foi quando fatores próprios e alheios contribuíram para o desastre. Ele estava em alta velocidade, tinha bebido e não usava o cinto de segurança. Numa curva, perdeu o controle do carro e bateu em um poste. Dos três funcionários, dois usavam o cinto. O terceiro, um homem alto e pesado, sentado atrás do banco do motorista, estava sem cinto e, com a colisão, praticamente esmagou Antenor.

“Os carros da época não tinham essa proteção que fica atrás da cabeça do motorista. Na hora, eu senti que tinha perdido o movimento das pernas. O socorro demorou muito e, quando chegou, não fui imobilizado corretamente. Essas duas falhas fizeram com que eu perdesse mais 20% do movimento do corpo. Outros 50% já tinham ido embora com o acidente. Fiquei com 30%”, relata.

O acidente deixou graves sequelas no corpo de Antenor Lino e na imobiliária. Das 35 construtoras parceiras, apenas uma, a JPM, continuou fazendo negócio com ele. Todos os corretores deixaram a empresa. “Foi um choque depois do choque. Ninguém queria fazer negócio com um homem em uma cadeira de rodas. O preconceito falou mais alto. Por isso, tenho uma eterna gratidão a Flory Barbalho, presidente da JPM, que nos deu essa oportunidade”, diz Antenor.

Nesse momento, foi a vez de Solange Lino, que nunca havia vendido um apartamento na vida, tomar as rédeas da empresa. “Quando saiu do hospital, Antenor me orientava sobre o que eu deveria fazer. Eu fazia o plantão no prédio e falava com ele por telefone a todo momento, para tirar dúvidas. Foi uma situação extremamente difícil, mas não tinha outro jeito”, relembra Solange.

Quando terminaram de comercializar o Edifício Duque de Bacelar, da JMP, Antenor e Solange se viram sozinhos em termos de parceria com as construtoras. Foi aí que resolveram erguer os prédios por conta própria. O casal vendeu alguns imóveis e, junto com suas economias, começou a levantar o Edifício Lady Raquel, na Torre, em 1986. Nessa época, o escritório da construtora funcionava na garagem da casa que tinham alugado no mesmo bairro. Antenor ia trabalhar de cadeira de rodas, ainda bem doente e fragilizado. Solange, sempre a seu lado, ajudava no que podia.

“Eu vendia apartamento, colocava faixa na frente da obra, fazia as compras de material. Durante a construção, teve uma greve de ônibus e os funcionários não podiam chegar ao trabalho. Durante vários dias, eu saía de casa às 5 da manhã, sozinha, dirigindo uma Belina velha, para buscar os empregados nos morros de Casa Amarela”, relembra sorrindo.

Depois desse, foram vários outros edifícios erguidos sem financiamento bancário. Mas o crédito dos bancos estava ausente não por falta de tentativas. Eles aprontavam toda a documentação e passavam meses adequando os projetos a todas as exigências da Caixa Econômica Federal, mas o dinheiro nunca saía. “Daí eu fui falar com o superintendente local da época para saber o que estava acontecendo. Como é que a minha empresa obedecia a todas as regras e não conseguia os recursos? Ele me disse que, para conseguir dinheiro da Caixa, só com a bênção de um padrinho político. Eu saí daquele banco tão revoltado! Até era amigo de alguns políticos, mas me recusei a pedir favor”, garante Antenor.

Mas isso não quer dizer que o casal não tentou correr atrás do prejuízo. Antenor e Solange conseguiram marcar uma reunião com o então presidente nacional da Caixa, Álvaro Mendonça, para relatar o que havia acontecido. “Ele nos atendeu muito bem e prometeu que, quando a nova linha de financiamento fosse aberta, a nossa empresa seria a primeira a assinar contrato com a Caixa, isso se estivesse tudo certo com a documentação. Cumpriu o prometido, alguns meses depois, e financiamos dois imóveis com o banco”, explica Antenor. Depois, a construtora desistiu do crédito bancário por causa da burocracia.

Com ou sem banco, a empresa ergueu 30 empreendimentos e gera 400 empregos diretos e indiretos. A maioria dos prédios erguidos hoje tem apartamentos com um ou dois quartos e fica nos bairros de Piedade e Candeias. O escritório da empresa, localizado em Piedade, em breve deve passar para uma ampla sala em um dos empresariais da Reserva do Paiva. O casal também vai se mudar para o bairro planejado. “Juntos, sobrevivemos a um grave acidente, ao preconceito contra o deficiente e contra a mulher e a 13 planos econômicos. Unidos, podemos superar qualquer coisa. Os meus 30% valem muito”, diz Antenor.

Negócios PE - 28ª Edição
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