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Empreendedor da nossa cultura

O primeiro trampo do ativista multicultural Roger de Renor foi gravar fitas cassete com set lists encomendados ao discotecário Flavio Galetinho. Trinta e três anos depois, o líder cinquentão do Som da Rural continua construindo sua trajetória apoiado na promoção da cultura popular e nos símbolos da resistência cultural de Pernambuco.

Por Drayton Nejaim | Foto de Bosco Lacerda

"Hoje a gente não é mais escravo do Ibope. Eu posso ser o Roberto Marinho de mim mesmo com o youtube e as redes sociais" afirma Roger

A relação de Roger com a música continuou depois da assistência a Galeto, quando se tornou divulgador da gravadora WEA e promovia o seu cast para rádios e jornais. Era o início da cena do rock nacional dos anos 1980, em que Pernambuco era mero figurante. Em paralelo a esse trampo, Roger virou professor de capoeira, habilidade que lhe garantiu um convite para ingressar no Balé Popular, onde construiu uma rica formação na cultura do Estado, interagindo com a família Madureira - Antônio “Zoca” (um dos fundadores do Bloco da Saudade, em 1973), André (fundador do Balé Popular do Recife, em 1977) e Antúlio (multiartista solo consagrado como referência da nossa cultura popular), – o ator Walmir Chagas e a bailarina e coreógrafa Maria Paula Costa Rêgo. Oito anos depois, promovido a representante de vendas, Roger visitava regularmente lojas, supermercados e atacados para vender discos de vinil em grosso. Estava com 28 anos e não sentia emoção no que fazia. Sua natureza suplicava que se dedicasse à música dentro de outro contexto. “Eu gostava muito de música, mas ganhar dinheiro vendendo um som descartável não era motivador”.

Nesse período, frequentava o Azulzinho, bar em Brasília Teimosa cujo chamariz era uma radiola de ficha e a sopa de cabeça de peixe. Roger também reunia as tribos que integrava em festas pra lá de animadas em sua casa. Batiam o ponto a turma da capoeira, do teatro, do balé popular e a malandragem que frequentava o “point do Acaiaca” na praia de Boa Viagem.  Desse ambiente, e da necessidade de descolar um novo trampo, surgiu a Soparia, bar que marcou época no Pina, quando o Pina era o primo pobre de Boa Viagem. Abriu junto com Paula de Renor, sua irmã mais velha, atriz e produtora cultural. Paula havia abandonado o curso de Engenharia para se dedicar ao teatro após voltar de um intercâmbio nos “States”.

A ideia inicial de Roger foi oferecer um botequim que virasse a noite atendendo à boemia na madrugada. Tanto que, em seu início, em 1991, a Soparia abria à meia noite e encerrava às oito da manhã. O horário pouco convencional foi uma aposta anárquica logo ajustada. A química dos irmãos de Renor com o universo underground local impulsionou a casa e a improvável fórmula de sopa com cerveja tornou-se apenas um pretexto para reunir a cena cultural, artística e intelectual da província e ouvir música que as rádios não queriam tocar.

O espaço era animado por uma radiola de ficha apoiada nos milhares de discos de vinil que Roger havia acumulado. E ele adorava fazer a direção musical do espaço que em pouco tempo se tornou também um reduto para a apresentação de bandas em início de carreira. Nomes como Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre, Eddie, Cavalo do Cão, Cascabulho, Má Companhia e Mestre Ambrósio passaram por lá. Aliás, depois de um tempo, quase todos os artistas que vinham ao Recife davam uma canja na Soparia. Gente como Marcelo D2, Hermeto Pascoal, Alceu Valença, Noite Ilustrada e bandas como Paralamas do Sucesso. Nesse período, Roger e Paula de Renor ainda protagonizaram por três anos a peça de teatro Salto Alto, em cartaz nos teatros Barreto Júnior e Waldemar de Oliveira.

Durante muitos anos a Soparia esteve lotada. E em seu ciclo montou participações itinerantes no Abril pro Rock e no Festival de Inverno de Garanhuns. Roger era a alma do bar e Paula, alguma razão. Após a descoberta da rua por outros comerciantes, a oferta aumentou muito, pulverizando o perfil dos frequentadores. Nesse momento o público da Soparia começou a se afastar até a casa fechar as portas, no ano 2000. “Nosso cliente era específico e ia pela música e pelo lugar. Existia uma comunicação entre o conceito e o público. Com a popularização da rua no embalo do Polo Pina, a magia que unia as pessoas ao espaço se dispersou”, analisa Roger, que complementa: “A Soparia não era um comércio. Era um centro de difusão cultural, um agente de promoção da indústria criativa”.

De 2000 a 2002 os irmãos tentaram repetir a iniciativa abrindo o bar Pina de Copacabana, na Rua da Moeda, época em que ancorou o Rec-Beat no lado oriental do bairro, apelidado de “Faixa de Gaza”. A Rua da Moeda, para ele, foi vítima do mesmo comportamento que fez a Soparia fechar. “A rua expandiu muito sua oferta e o caos se instalou, provocando uma briga de sons entre as casas e muita desorganização”, afirma o empreendedor cultural que passou o ponto aos funcionários.

O ciclo de mais de uma década vivenciado no ambiente de bares deixou um legado concreto, a intimidade de Roger com a cena musical contemporânea e emergente de Pernambuco, e lhe rendeu o convite da Rádio Cidade para ancorar um programa que também se tornou um catalisador da cultura local, a “Sopa da Cidade”, atração diária e ao vivo que esteve por quatro anos no ar com duras horas de duração (das 9 às 11 da manhã). O sucesso na rádio o levou à primeira experiência na tevê, com o programa “O Som da Sopa”, exibido na Tv Guararapes.

A incursão na tevê rendeu um capítulo à parte. Roger apresentou quatro vezes o programete Brasil Total, com duração de sete minutos e exibido dentro do Fantástico, experiência que funcionou como um cartão de visitas para ser levado a sério na televisão. Roger surfou a onda e levou “O Som da Sopa” para a TVU. Depois, na mesma emissora, seria exibido o “Sopa Diário”, das 12 às 13 horas, exibido por quatro anos, misturando bandas, cultura popular e a discussão de temas ligados à cidadania, e o “Sopa Auditório”, produzido na Torre Malakof ao vivo aos domingos em horário nobre, das 16 às 18 horas. No currículo como apresentador de televisão, Roger de Renor inclui também o programa “Som na Rural”, exibido em rede nacional durante dois anos no Canal Brasil (em Pernambuco também pela TVU e TV Pernambuco). Toda essa produção televisiva foi viabilizada com financiamento público através de editais ou financiamento direto.

Mas além de vendedor, capoeirista, dançarino, empresário, ator, apresentador de rádio e tevê e produtor cultural, Roger de Renor também se envolveu com a gestão pública, primeiro discutindo e questionando o modelo da comunicação estatal em Pernambuco, integrando o coletivo Fórum Pernambucano de Comunicação (Fopecom), e depois, por quatro anos, como diretor do Detelpe, departamento técnico que abriga a TV Pernambuco. Como gestor público, Roger abraçou a missão de fazer a transição da TV de um departamento vinculado à Secretaria de Ciência e Tecnologia para uma empresa pública de comunicação (EPC).

A EPC foi criada normatizando um Conselho Administrativo com poder de eleger e destituir presidentes, “o que blinda a ingerência política”, acredita Roger. A luta agora é para que a empresa ganhe um orçamento para produzir e veicular conteúdo. Roger deixou a função no final do ano passado, e durante o período em que ocupou uma função pública manteve-se no ar pela rádio com o programa “Sopa da OI”.

E o cinquentão continua firme na estrada com o “Som na Rural”, projeto popular itinerante que acontece na Pracinha do Diário até o Carnaval, duas vezes ao mês, reunindo até 2 mil pessoas e transmitido pela fan page que já supera 10 mil seguidores.  O projeto acaba de ser aprovado em edital que financiará seis programas de uma hora exibidos pelo Canal Brasil e produzido em bairros como Pina, Coque, São José, Alto de Santa Teresinha, Peixinhos e Morro da Conceição. “O 'Som na Rural’ é quase uma ação política de rua”, sentencia o apresentador, que encontrou um caminho original para ser visto, ouvido, seguido e lembrado. Roger de Renor, além de empreendedor, é um líder. E sabe disso. 

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