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Um líder nato

O ex-prefeito de Caruaru Drayton Jayme Nejaim completaria 81 anos no dia 02 de novembro. Ele deixa como legado de sua vida pública um expressivo conjunto de obras estruturadoras que servem à população da região até os dias atuais.

Por Drayton Nejaim | Fotos arquivo pessoal

O ex-prefeito de Caruaru Drayton Jayme Nejaim completaria 81 anos no dia 02 de novembro. Ele deixa como legado de sua vida pública um expressivo conjunto de obras estruturadoras que servem à população da região até os dias atuais. No exercício dos cinco mandatos como deputado estadual e nos 12 anos que esteve à frente da prefeitura da Capital do Agreste (conquistados democraticamente através do voto direto), Drayton revelou-se um humanista, dedicando-se à pobreza e à estruturação da cidade que o projetou como uma legenda política do seu tempo em Pernambuco.

Humanista

Ele começou na política pernambucana em 1953, eleito deputado estadual pela União Democrática Nacional (UDN), tendo como principal base a cidade de Caruaru. Jovem (apenas 23 anos), ganhou vez e voz na política do Agreste combatendo a oligarquia liderada por Irineu de Pontes Vieira. Bem-nascido e inteligente, com carisma e retórica que impressionavam, Drayton Nejaim exerceu grande influência na política pernambucana até a década de 80. Nesse período tornou-se um símbolo da direita no Estado, um líder admirado pelo seu vasto e fiel eleitorado (chamados de draytistas), querido pelos seus companheiros de luta, respeitado e temido por seus adversários.

O homem que se tornaria uma legenda política do Agreste nasceu em Caruaru, na Rua da Matriz, casa nº 249, filho do empresário franco-libanês naturalizado Jayme Nejaim e de Olindina Ferraz Nejaim, conhecida como dona Santinha. Jayme Nejaim era um homem de posses. Além de ser o primeiro agente Ford na região, tinha fazendas, engenho, uma fábrica de sabão e explorava minas de cal e cimento. Além da condição paterna privilegiada, Drayton teve a favor do exercício de sua vocação a paixão desmedida de seu tio, Ibrahim Nejaim, irmão de Jayme, e uma das grandes fortunas do Estado na metade do século passado. Tio Ibrahim (pai da conhecida arquiteta Márcia Nejaim) não tinha filhos homens e elegeu o sobrinho o seu preferido. Para ele não media esforços.

Drayton foi educado nesse ambiente. Era o irmão mais velho e o único filho homem da união de Jayme e Santinha, que também concebeu as irmãs Napier, Leila Renda, Nancy (falecida) e Lilian Bandeira de Melo. O primogênito estudou nos colégios Leão XIII e Osvaldo Cruz, na capital pernambucana, tendo feito o científico no Colégio Mackenzie, em São Paulo, e cursado a Faculdade de Direito no Rio de Janeiro. Posteriormente regressou e finalizou o último ano na Faculdade de Direito do Recife, de onde saiu advogado para ensaiar um escritório com seu amigo Benildes Ribeiro, oriundo do município de Agrestina, e que anos mais tarde se tornaria desembargador do Estado.

Apesar das oportunidades profissionais que poderia abraçar como empresário ou advogado, a vocação para a política falou mais alto. A inspiração de Drayton era o pai, Jayme, homem que, apesar da situação financeira consolidada, era simples e fiel amigo do povo pobre de Caruaru e região, com quem sentava à mesa para dividir o pão e prover soluções familiares, que iam do remédio ao transporte, passando pela escola, tratamentos de saúde e emprego. O comerciante, chamado na região de “coronel Jayme”, tinha largura cristã para ajudar indiscriminadamente a quem lhe pedia, e foi no exemplo paterno que Drayton inspirou sua prática política de priorizar a pobreza de Caruaru e região através de sua obra.

Portanto, a condição de humanista nato foi herdada do pai. Sua história de vida esculpiu um homem nascido na elite econômica estadual, mas que não tinha um coração burguês, sendo capaz de tirar a camisa do corpo para ser solidário a uma pessoa necessitada. Um homem simples em sua essência cuja postura refletiu-se em sua conduta política e no esforço para direcionar sua obra pública para os menos favorecidos. Entretanto, sua origem abastada lhe conferiu uma juventude sem limites, que, somada à formação privilegiada para a época, não combinava para muitos com sua vocação política popular. Essa equação transformou Drayton Nejaim num produto que trazia o charme do capitalismo somado a uma enorme sensibilidade e indignação com as desigualdades sociais, um traço socialista.

Essa fórmula, responsável por emoldurar o político, jamais foi absorvida pela elite econômica caruaruense (a quem Nejaim nunca se preocupou em afagar), tampouco pela maioria intelectual residente na Capital do Forró, visceralmente esquerdista e, portanto, ideologicamente desinteressada em reconhecer méritos na obra pública estruturadora de caráter popular de um político da direita.

Foi nesse contexto que Drayton Nejaim construiu sua trajetória. Primeiro representando o novo na política de Caruaru desestruturando uma oligarquia instaurada. Depois sendo pioneiro, junto com seu colega deputado estadual Murilo Costa Rego, no apoio à candidatura do industrial Cid Sampaio (falecido recentemente) a governador de Pernambuco, período em que Nejaim acumulou grande prestígio e ocupou a liderança do governo na Assembleia Legislativa, considerado o mais progressista de Pernambuco até a era Jarbas/Eduardo.

Em paralelo, Drayton começou a formar quadros na região que liderava, colocando na política como candidato a prefeito de Caruaru em 1959 o comerciante João Lyra Filho, oriundo de Lagoa dos Gatos, a quem ensinou a discursar. Elegeu Lyra, mas quatro anos depois estavam em campos opostos. Na eleição seguinte para a prefeitura de Caruaru, Drayton derrotou o candidato de João, o jornalista Celso Rodrigues, que havia sido assessor de Nejaim, de quem outrora fora compadre.

Nesse mesmo período, outro nome conhecido daria seus primeiros passos na política apoiando e aprendendo com Drayton, o ex-ministro Fernando Lyra (de quem Nejaim era padrinho de casamento). Após a revolução, Fernando, antes de se tornar um autêntico do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) em 1966, tentou exaustivamente junto com o pai, João, assumir o controle da Aliança Renovadora Nacional (Arena) em Caruaru, que estava e continuou nas mãos de Drayton, prefeito de Caruaru até o final de 1968. Durante essa fase, o líder caruaruense continuou desfrutando de força nos governos eleitos indiretamente pela Assembleia Legislativa de Paulo Guerra e Nilo Coelho.

Na revolução de 1964, Drayton se posicionou ao lado dos militares. Dono de uma coragem pessoal bem acima da média, Nejaim, porém, nunca foi subserviente ao regime. Em Caruaru e região todos sabem que abrigou em suas propriedades perseguidos políticos e tirou da cadeia outros. Lá os mais velhos também lembram que, quando prefeito, foi provocado a listar os comunistas da cidade e respondeu ao general responsável: “Não acho que em Caruaru existam comunistas. O que existe é gente pobre e necessitada que faz oposição. Mesmo que existisse não tenho vocação para delator”.

Em 1976, Drayton Nejaim voltaria a vencer duas eleições importantes. A primeira, as prévias internas da Arena para prefeito de Caruaru, com uma votação esmagadora sobre Roberto Fontes, que seria quinze anos mais tarde vice-governador de Pernambuco no governo de Joaquim Francisco (1990-1993). Confirmado candidato a prefeito pela oposição contra o estreante em eleições, o gestor do Banco do Brasil José Queiroz de Lima, representante do prefeito (eleito pela segunda vez) João Lyra Filho (73-76), Drayton protagonizou um embate histórico para Caruaru porque não era o favorito.

Na eleição, Nejaim venceu por uma diferença contundente para a cidade, superior a 2 mil votos, derrotando pela segunda vez o candidato de João Lyra Filho. Neste pleito, lançou outro quadro de projeção estadual, Roosevelt Gonçalves, que foi seu vice-prefeito e dois anos depois se elegeria deputado estadual com o seu apoio (tendo sido também prefeito de Cumaru). Neste período, Nejaim voltou a ter grande prestígio estadual em virtude da grande amizade pessoal com o governador Moura Cavalcanti, tendo mantido também excelente trânsito no governo de Marco Maciel.

Nas eleições de 1982, Drayton colocava na política de Caruaru como candidato a prefeito o empresário Adolfo José da Silva (ex-deputado estadual e atual vereador da Capital do Agreste). No pleito, regido pelo artifício da sublegenda que somava os votos dos candidatos de cada coligação, Adolfo polarizou a disputa com o deputado estadual, eleito em 1978, José Queiroz de Lima, mais uma vez candidato apoiado por João Lyra Filho. Apesar de vencer Queiroz por uma diferença individual superior a 5 mil votos, Adolfo não assumiu, porque na soma dos votos de cada sublegenda José Queiroz (do MDB 1) somou seus votos aos do médico João Miranda (MDB 2) e do ex-prefeito, Anastácio Rodrigues (MDB 3). Adolfo José (PDS 1) somou os seus votos aos do delegado e vereador José Carlos Rabelo (PDS 2), outra cria política de Nejaim.

Assim, José Queiroz de Lima tornou-se prefeito em seu primeiro mandato sem derrotar, eleitoralmente, o candidato de Nejaim, ganhando a prefeitura na soma das legendas por uma diferença de 541 votos, que pertenceram ao ex-prefeito Anastácio Rodrigues (69-72), o menos votado daquela eleição com cerca de 700 sufrágios.

Em paralelo, Drayton voltava à Assembleia Legislativa com 30 mil votos, transferindo para seu candidato a deputado federal na época, João Carlos di Carli, uma votação expressiva, que deixava clara a vitalidade de sua liderança, de 14.004 votos apenas em Caruaru (praticamente o mesmo número de votos que Tony Gel deu a Augusto Coutinho na eleição do mês passado, 28 anos depois). Nesta eleição, Nejaim colocou na política ainda o médico Valter Sousa, eleito prefeito de Toritama, que anos mais tarde se tornaria vice-prefeito de Caruaru na chapa de Tony Gel (2000-2003).

Quatro anos após (1986), a conjuntura para a reeleição havia mudado drasticamente. Drayton Nejaim estava enfraquecido e sabia disso. Era um político popular distante das bases. Já não tinha a disposição necessária para o corpo a corpo diário. Dava sinais de cansaço e não queria ser candidato à reeleição. Seu plano era se fortalecer no município para tentar outra candidatura a prefeito em 1988. Porém, coincidência ou não, após receber em seu apartamento no Recife uma visita do velho amigo Armando Monteiro Filho, com quem havia estudado no Osvaldo Cruz, Drayton decidiu ser candidato para ajudar no Agreste a candidatura a governador do sobrinho de Armando, José Múcio Monteiro, com quem havia mantido boas relações como secretário de transportes do governo de Roberto Magalhães. Múcio era candidato contra a “onda” Miguel Arraes, um tsunami político de grandes proporções semelhante ao que enxergamos recentemente na reeleição do seu neto, o governador Eduardo Campos.

Nesse tempo outros fatores também agiam contra a candidatura de Nejaim à reeleição para deputado. O PDS, partido que sucedera à Arena, havia sido fracionado pelo surgimento em meados de 1985 da Frente Liberal, ao qual Nejaim não havia aderido, recusando-se a apoiar Tancredo Neves. Essa posição distanciou-o gradativamente da cúpula liberal, desgaste que se formalizou com a decisão de Nejaim de apoiar as candidaturas ao Senado do ex-governador Cid Sampaio e do ex-prefeito do Recife Antônio Farias (com quem mantinha uma histórica ligação política e de amizade), em detrimento do nome da professora Margarida Cantarelli (macielista de carteirinha) e do governador Roberto Magalhães.

Com esse cenário posto, Nejaim perdeu muitos municípios que o apoiaram em 1982, por recomendação da cúpula pefelista. Desgastado e de asa quebrada, Drayton Nejaim subia nos palanques na campanha de 1986 com uma atitude suicida: pedir votos casados para José Múcio Monteiro. Quase ninguém fez isso. Era voz geral que a força de Miguel Arraes naquele pleito seria uma ameaça concreta a quem pedisse o voto casado (como aconteceu de novo nesta eleição com Serra e Jarbas). Abertas as urnas, Drayton teve uma votação tímida (para ele) e ficou na segunda suplência, enfrentando a sua primeira derrota na política aos 57 anos.

Nesse meio tempo, uma nova liderança se fortalecia em meio à fadiga inerente ao poder que atingia Nejaim, historicamente dono de um eleitorado consistente na cidade e zona rural de Caruaru e região. O jovem radialista Tony Gel apresentava um programa diário popular na Rádio Liberdade, prestando serviços assistenciais à população carente, eleitorado primário de Drayton. Jovem, Tony não acumulava desgastes, revelava-se um excelente comunicador de massa, além de genro do ex-presidente do Central Sport Club, Luís Lacerda, uma liderança empresarial respeitada na região.

Em 1988, ano da eleição para prefeito, uma reunião na sede da Rádio Liberdade com a presença de Luís Lacerda, Bibiu do Paraíso das Louças, Nabor Santiago, Antônio Severo (cobrinha) e seu filho Zeca, o deputado estadual José Antônio Liberato e seu filho Roberto, os ex-vereadores Roberto Sales, Adjar Pereira e Rui Rosal, mais Tony Gel e Drayton Nejaim decidiria a candidatura da direita em Caruaru. Nejaim havia convidado Tony para ser seu vice desde 1986. Tony liderava as pesquisas de intenção de voto apresentadas na reunião e convidou Drayton para vice. Nejaim não tinha apetite para o papel e abriu caminho para a chapa com Tony na cabeça. Gel perdeu a eleição para João Lyra Neto por muito pouco, mas capitalizou um espaço político que era historicamente de Nejaim.

Na mesma eleição de 1988, o velho guerreiro, estrategista de tantas eleições ganhas, cometeu então um erro estratégico aceitando o convite dos irmãos Nunes (Ivan, Edson e Ednaldo), com quem mantinha amizade longeva, para a candidatura a prefeito em Riacho das Almas, cidade vizinha a Caruaru emancipada por Drayton (como deputado estadual) que elegera seu pai, Jayme Nejaim, seu primeiro prefeito ainda na década de 50.

Drayton tornou-se candidato a prefeito num município que conhecia, mas já não dominava. Representava um prefeito com um desgaste significativo para o momento (Ednaldo Nunes), enfrentava limitações eleitorais de transferência de domicílio que o fizeram ter apenas 90 dias de candidatura registrada e lutava contra um candidato que era o médico da cidade, o atual prefeito Deoclécio Rosendo. Nejaim obteve assim seu segundo revés. Ele, que fora protagonista por quatro décadas da cena política agrestina, sentiu a derrota que tocava a sua biografia.

Àquela altura faltava-lhe disponibilidade, força política e a mão do destino para recompor seu espólio eleitoral. Geograficamente estava profissionalmente impedido de morar em Caruaru pelo cargo que havia assumido ao final do governo Roberto Magalhães, nomeado curador de indiciados vinculado à Secretaria da Justiça pelo governador interino, Osvaldo Rabelo, presidente da Assembleia. Drayton havia se tornado ao longo de sua vida pública um homem de classe média e precisava do emprego para viver e se aposentar. Corria o governo Arraes, a quem Nejaim combatera com vigor desde 1960, e por isso qualquer deslize representaria uma motivação política para sua demissão. Politicamente, já não era mais o nome de confiança do clã pefelista em Caruaru, com quem havia se desgastado pelas posturas assumidas em 1985 e 1986. Quis o destino que seu amigo leal, o senador Antônio Farias, tivesse falecido em abril de 1988. Farias teria influenciado na decisão de Nejaim ser candidato em Riacho das Almas, como também o ajudado a revitalizar seu ciclo político se assim desejasse.

Após 20 anos de afastamento, seu velório e sepultamento na Capital do Agreste serviram para mostrar como o DNA do velho líder, ainda estava intimamente ligado à identidade da cidade, ao seu povo pobre e às lideranças aliadas e de oposição. A presença de praticamente 100% dos políticos da cidade, do passado, presente e futuro, constatada em sua derradeira aparição pública, encontra explicações na importância da liderança de Nejaim para a Capital do Forró, que foi, segundo texto do jornalista Inaldo Sampaio em sua coluna da Folha publicado no dia seguinte ao falecimento, “o político mais carismático que Caruaru conheceu nos últimos 60 anos”, comparando-o a Jânio Quadros.

Mais que isso. Drayton foi responsável por uma safra de políticos da região. Outros não entraram pelas mãos de Nejaim, mas foram liderados e doutrinados por ele durante longos períodos, como o ex-deputado José Antônio Liberato. Alguns cresceram politicamente batendo na sua liderança, como João Lyra Filho e, mais tarde, José Queiroz. Os mais novos como o deputado estadual eleito Tony Gel, que herdou seu patrimônio eleitoral, está fadado enquanto liderar a direita de Caruaru a ser comparado politicamente com o estilo inconfundível de Nejaim, para mais ou para menos.

O fato é que a política de Caruaru orbitou durante quatro décadas sobre o seu nome e, por isso, seu desaparecimento fechou um ciclo, provocando naqueles que o apoiaram ou combateram um luto, fruto de uma conexão emocional personalizada, estabelecida com cada um ao longo de sua trajetória e baseada em sentimentos controversos que vão do amor ao ódio. O certo é que todos que interagiram politicamente com ele a favor ou contra reconheciam a sua liderança e o entendiam como um guerreiro, desses que honram a camisa do time que vestem. Quando Drayton Nejaim se foi, um pequeno pedaço de cada um desses atores morreu junto.

 

O falecimento

Aconteceu no Hospital Santa Joana, no Recife, na noite do sábado, 14 de agosto às 21h15. Trinta minutos depois, a família foi informada de que o prefeito da cidade de Caruaru, José Queiroz de Lima, adversário político histórico de Nejaim, declarou luto oficial por três dias e colocou o hall da prefeitura, edificação construída por Drayton e que leva o nome de seu pai, Palácio Municipal Jayme Nejaim, à disposição para o velório do ex-prefeito.

Na noite do falecimento, um enorme esforço foi empreendido pela equipe da prefeitura, liderada pelo assessor especial Marcos Augusto, para desviar o trânsito do local e preparar o cerimonial, que incluiu a presença da Guarda Municipal, para realizar a segurança do velório, e do Corpo de Bombeiros, para fazer o traslado da urna. Ainda na mesma noite, a família recebeu uma ligação do vice-governador João Lyra Neto (afilhado de batismo de Drayton Nejaim) informando que havia intercedido junto ao governador Eduardo Campos para desmobilizar um megaevento político que aconteceria no domingo em Caruaru, concentrando lideranças políticas de 37 municípios da região.

Na missa de corpo presente, realizada pelo bispo da cidade, dom Bernardino Marchió, ao meio-dia, a leitura do Evangelho foi feita pelo prefeito José Queiroz, que compareceu junto com a esposa, a primeira-dama Carminha, e o vice-prefeito Jorge Gomes e a esposa, Laura. Junto com eles o vice-governador João Lyra Neto e a filha Raquel, além do deputado federal Wolney Queiroz, o secretário Douglas Cintra e vereadores, como Leonardo Chaves, José Ailton, Demóstenes Veras, Diogo Cantarelli, Lula Torres e Adolfo José da Silva.

Em paralelo, o povo pobre, que sempre acompanhou Drayton Nejaim, encheu o hall da prefeitura animado pela presença de repentistas que se revezavam cantando músicas de campanhas do político. À tarde chegaram aliados como os ex-deputados Roosevelt Gonçalves e Roberto Liberato, os ex-vereadores José Carlos Rabêlo, Ruy Rosal, Luiz Tabosa, Adjar Pereira e os ex-prefeitos João Dutra e Valter Sousa.

"Tivemos nossas divergências, mas neste momento eu viro a página. Não podemos apagar a importância de Drayton Nejaim para a história política e o desenvolvimento de Caruaru", declarou o prefeito José Queiroz ao jornal Vanguarda de Caruaru.

"Drayton foi um político importante para a história contemporânea de Caruaru. Foi prefeito 12 anos e deputado por cinco mandatos e, apesar das divergências ideológicas e na prática política, teve muita importância para a cidade e o Estado. É um político que merece a reverência dos caruaruenses", reconheceu o vice-governador João Lyra Neto ao jornal Vanguarda de Caruaru. 

No Cemitério Parque dos Arcos acompanharam o sepultamento Tony Gel e a esposa, a deputada estadual Mirian Lacerda, além de Rivaldo Soares. A Prefeitura de Caruaru destinou um túmulo na ala das autoridades e artistas que abrigou os restos mortais do ex-prefeito, sepultado coberto pelas bandeiras de Caruaru e do Central Sport Club (que prestou um minuto de silêncio na partida daquele domingo). O prefeito José Queiroz anunciou publicamente uma homenagem ao ex-prefeito Drayton Nejaim, dando o seu nome a um viaduto que cortará a BR-104 ligando o bairro de Maurício de Nassau a Nova Caruaru, bairro fundado por Nejaim, que lá residia.

 

A obra estruturadora

O que diferencia um político popular de um político populista é a dimensão da sua obra estruturadora, aquela que serve à população até os dias de hoje. Drayton Nejaim construiu um pedaço importante de Caruaru e sua força política viabilizou a estruturação dos serviços essenciais ao município. Pode-se afirmar que Nejaim foi responsável direto pelo primeiro salto desenvolvimentista da Capital do Agreste.

Como prefeito garantiu a construção das Cohabs 1, 2 e 3, que concentram 15.400 casas populares (hoje Bairros Rendeiras e Boa Vista 1 e 2) que abrigam em números atuais 65 mil caruaruenses. Também fundou os bairros de Petrópolis e Nova Caruaru e estruturou o Bairro Kennedy, promovendo o calçamento e saneamento de mais de 500 ruas e avenidas na cidade.

 

Página virada

As homenagens a Drayton suscitaram comentários em Caruaru que colocavam dúvida nas intenções dos gestos de solidariedade e reconhecimento liderados por políticos que durante décadas combateram politicamente Nejaim de forma radical. Esses comentários foram desconsiderados pela família do ex-prefeito, que preferiu apostar na tese da página virada, agradecendo a nobreza de caráter, o sentimento cristão e a altivez pública do atual prefeito, José Queiroz, do vice-prefeito Jorge Gomes e do vice-governador de Pernambuco, João Lyra Neto que colocaram a ideologia política em segundo plano, naquele momento, para fazer justiça a dimensão pública e a trajetória do ex-prefeito Drayton Nejaim.

Drayton Jayme Nejaim

"Drayton entrou para a história consagrado em Caruaru e Pernambuco. Destemido, corajoso e leal, sabia ser fiel aos amigos. Ele implantou em Caruaru profundas mudanças sociais e administrativas, inovou na forma de governar e repetiu seu pai, Jayme Nejaim, no arrojo de suas posições, na defesa de seus amigos e ideais." Roldão Joaquim dos Santos, secretário de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do governo do Estado.

Drayton levou água e energia aos oito distritos de Caruaru com a construção de 14 poços artesianos, disponibilizando nas praças dos povoados a instalação de 18 televisões, buscando democratizar o acesso à informação, isto na década de 60 e em plena ditadura militar. Suas administrações construíram 12 postos de saúde com médicos e dentistas, além de 20 grupos escolares dentro do perímetro urbano da cidade. Seus governos deixaram a serviço do município sete barragens e mais de 80 açudes.

Nejaim levou o telefone para Caruaru instalando por lá a Telefônica de Caruaru S.A. (Tecasa). Levou também para a cidade a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros, viabilizou a construção do Serviço Social do Comércio (Sesc) e fundou o primeiro distrito industrial doando os terrenos que abrigam as corporações, o serviço e o distrito até os dias atuais. O líder político foi responsável também pela criação do Parque de Exposições de Animais de Caruaru e pela doação do terreno localizado no Bairro Petrópolis que abriga hoje a loja mãe da Maçonaria caruaruense, Dever e Humanidade nº860, que soma 103 anos de atuação.

Em sua administração, foi edificado o Estádio Pedro Victor de Albuquerque (hoje rebatizado Lacerdão), época em que seu governo doou 128 terrenos localizados no Centro da cidade para a construção do empreendimento e realizou 22 bingos públicos em que arrecadou fundos para a finalização da obra. Ele construiu ainda o Matadouro Industrial (com recursos municipais), conseguiu a instalação em Caruaru do Pronto-Socorro Estadual e sua interferência viabilizou no governo de Moura Cavalcanti a edificação do Terminal Rodoviário de Caruaru, na época o maior do interior de Pernambuco.

Drayton Nejaim aprovou, também na década de 60 (em pleno regime militar), as concessões públicas das rádios AM Cultura do Nordeste e Liberdade, doando os terrenos para a instalação dos transmissores aos respectivos proprietários, José Almeida e Luiz Lacerda. Na década de 80, no governo Roberto de Magalhães, garantiu para a Capital do Agreste a primeira emissora de TV pública com sinal e programação local no interior, a TV Tropical (hoje TV Pernambuco).

Porém, para muitos, sua obra de referência é a sede da atual Prefeitura de Caruaru, nomeada como Palácio Municipal Jayme Nejaim, formada por dois edifícios e inaugurada ao final da década de 60, um prédio que continua a ser hoje um dos mais belos projetos arquitetônicos existentes na Capital do Agreste e que na época permitiu a integração organizacional das secretárias, garantindo agilidade e integração na tomada de decisão do corpo gestor ligado ao prefeito.

Negócios PE - 18ª Edição
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